Concorrentes unem forças por combater pobreza no semiárido nordestino

 

Amigos do Bem: Rafael Russowsky (GPA), José Rafael Vasquez (ex-Carrefour), Maria del Pilar Muñoz (Eurofarma), José Vicente Marino (Aché), Alcione Albanesi, Celso Ferrer (Gol), Jerome Cadier (Latam), Marcelo Patrus (Patrus Transportes) e Fernando Simões Filho (Simpar) (Germano Lüders/Exame)
Amigos do Bem: Rafael Russowsky (GPA), José Rafael Vasquez (ex-Carrefour), Maria del Pilar Muñoz (Eurofarma), José Vicente Marino (Aché), Alcione Albanesi, Celso Ferrer (Gol), Jerome Cadier (Latam), Marcelo Patrus (Patrus Transportes) e Fernando Simões Filho (Simpar) (Germano Lüders/Exame)

Amigos do Bem reúne empresas concorrentes em uma mesma causa: o combate à miséria no Sertão nordestino

São raras as ocasiões em que altas lideranças de empresas concorrentes posam juntas em uma mesma foto como a que abre esta reportagem. O momento foi registrado em 2 de dezembro último, data conhecida entre associações beneficentes como “Dia de Doar”. A confraternização foi marcada em um endereço da zona leste de São Paulo, onde fica a sede dos Amigos do Bem, organização sem fins lucrativos em atividade há mais de 30 anos. Um bairro residencial, simples, muito diferente dos arranha-céus espelhados onde esses executivos costumam fazer reuniões. O motivo do encontro era celebrar as conquistas da ONG em 2025 e reafirmar o compromisso com a solidariedade, motivo mais do que nobre para uma “trégua”.

“Acho que nós estamos todos unidos para esse bem maior. Temos uma afinidade de valores muito grande com o que nossos concorrentes fazem”, disse Maria del Pilar Muñoz, vice-presidente da Eurofarma, pouco depois do registro fotográfico ao lado de José Vicente Marino, CEO da Aché. Celso Ferrer, da Gol, também foi fotografado ao lado do principal executivo da Latam no Brasil, Jerome Cadier. “O fato de um concorrente apoiar a mesma causa nos faz lembrar que, fora do ambiente competitivo do dia a dia, todos têm a mesma responsabilidade social”, afirmou Ferrer.

Voluntários distribuem doações no Sertão: 150.000 pessoas impactadas por mês (Leandro Fonseca /Exame)
Voluntários distribuem doações no Sertão: 150.000 pessoas impactadas por mês (Leandro Fonseca /Exame)

Na mesma sala ainda estavam Fernando Simões Filho, conselheiro da Simpar, e Marcelo Patrus, CEO da Patrus Transportes. O varejo foi representado por Rafael Russowsky, CFO do GPA, e José Rafael Vasquez, que foi ao evento representando o Carrefour, semanas antes de deixar a empresa.

Ao centro da imagem, lugar mais do que propício, está a mediadora do encontro. Alcione Albanesi não tem falsa modéstia ao falar de uma de suas muitas habilidades. “Eu sempre construí pontes”, costuma dizer nas entrevistas que dá. Albanesi é referência em empreendedorismo feminino pela sua trajetória pioneira e precoce. Abriu o próprio negócio antes de completar 18 anos: uma confecção de roupas que fornecia peças para grandes varejistas de moda. Foi de dona de loja de lâmpadas no comércio popular da Santa Ifigênia, em São Paulo, a CEO de uma das maiores distribuidoras de led do país, com a FLC. A empresa chegou a ter um terço do market share de lâmpadas no Brasil e jogou luz também sobre o trabalho social que a executiva tocava em paralelo — e ao qual passou a se dedicar em tempo integral com o passar dos anos.

Albanesi deixou de ser somente modelo para mulheres que queriam ter o próprio negócio. À frente dos Amigos do Bem, ganhou reconhecimento como um dos nomes mais proeminentes do terceiro setor brasileiro. Há mais de três décadas, a organização sem fins lucrativos leva assistência a uma das regiões mais áridas do Brasil, o Sertão Nordestino. A dura realidade descrita por Graciliano Ramos no romance Vidas Secas, quase 90 anos atrás, permanece para milhões de brasileiros em pleno 2026. Ainda é uma das regiões com menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do país e padece da falta de água e de alimento, condições básicas para que qualquer atividade econômica possa ser desenvolvida.

“É uma região que sofre com a escassez de muita coisa. Problemas que o poder público, provavelmente, nunca vai conseguir sanar por completo. Onde não há geração de renda, não há arrecadação de imposto. Os governos acabam não tendo recursos suficientes para repassar a essas regiões, que demandam bilhões em investimentos”, afirma Paula Fabiani, CEO do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis).

No ano passado, metade dos recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), cerca de 24 bilhões de reais, estava reservado para a região do Semiárido Nordestino. O valor equivale a menos de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro previsto para 2025. É pouco para uma região que abrange 1.300 municípios e uma população de 28 milhões de pessoas, quase o número de habitantes do Sul do país. Não é à toa que os Amigos do Bem estão no Sertão há mais de 30 anos, sem prazo para sair de lá. O capital filantrópico se tornou essencial para a região, mas não para que as pessoas vivam de um assistencialismo eterno, como esclarece Albanesi. “Trabalhamos de forma permanente para que as pessoas saiam desse ciclo de pobreza”, afirma.

As ações dos Amigos do Bem chegam, todos os meses, a 150.000 pessoas, em 300 povoados no sertão de Alagoas, Pernambuco e Ceará. É gente que vivia no meio da seca, em casa de pau a pique, no chão de barro e com acesso bastante limitado a saneamento — por causa da escassez de água, mas também pela ausência quase total de infraestrutura. Um cenário que muitos dos empresários que apoiam a causa conheciam apenas pelos livros de estudos sociais e se surpreenderam ao ver pessoalmente. Muitos deles descrevem a experiência como transformadora, e alguns levam os próprios filhos em visita aos povoados para que tenham, desde cedo, a noção de que, longe das grandes metrópoles, há outro Brasil onde falta de tudo.

Centros de Transformação: educação é um dos pilares da ONG (Leandro Fonseca /Exame)
Centros de Transformação: educação é um dos pilares da ONG (Leandro Fonseca /Exame)

Segurança alimentar, educação, geração de trabalho, renda, saúde e infraestrutura: os pilares da organização são justamente aquilo que inexiste na região. Nessas mais de três décadas no Sertão, os Amigos do Bem foram a primeira oportunidade de emprego para uma geração inteira de crianças que corriam sem rumo pela Caatinga quando a ONG chegou. Oficialmente, a entidade fala em 1.800 postos de trabalho gerados no Semiárido Nordestino com as suas iniciativas. Também foi a primeira oportunidade de moradia decente para centenas de famílias.

As chamadas “Cidades do Bem” reúnem 559 casas de alvenaria com acesso regular à água e a serviços básicos. Cerca de 1,4 bilhão de litros de água chegam, por ano, aos moradores, graças à construção de cisternas e de poços artesianos, que ajudaram a reduzir a escassez hídrica local. Na parte de saúde, a ONG somou 210.000 atendimentos médicos e odontológicos em 2025.

Quatro centros de transformação concentram a principal frente educacional do projeto, reunindo diariamente cerca de 10.000 crianças e jovens. Nesses espaços, as atividades vão de reforço escolar, ações culturais e esportivas a cursos profissionalizantes em áreas como culinária, informática, cabeleireiro e manicure. Também são servidas, em média, 2,8 milhões de refeições por ano aos frequentadores. Além disso, a ONG já concedeu mais de 670 bolsas de estudo em instituições de ensino superior.

Impacto bilionário

Do pau a pique à alvenaria: acesso inédito à infraestrutura básica (Leandro Fonseca /Exame)
Do pau a pique à alvenaria: acesso inédito à infraestrutura básica (Leandro Fonseca /Exame)

Um estudo do Idis ajuda a dimensionar o alcance dos projetos dos Amigos do Bem no Sertão Nordestino. A pesquisa calculou o Retorno Social sobre Investimento (SROI) da organização em 6,45, indicador que mede quanto valor social é gerado a partir de cada real investido. Na prática, isso significa que cada 1 real doado à ONG se converte em 6,45 reais em benefícios diretos para as populações atendidas, considerando ganhos em renda, acesso a serviços, educação e melhoria das condições de vida.

O levantamento também aponta a escala desse impacto ao longo do tempo. Entre 2012 e 2021, os investimentos feitos pela organização geraram — e ainda devem gerar — efeitos sociais estimados em 2,1 bilhões de reais. Segundo o Idis, os maiores retornos estão concentrados nas frentes de trabalho e geração de renda, responsáveis por 38,4% do impacto total, seguidas pela educação, com 35,7%. Os dados reforçam o chamado Modelo de Desenvolvimento Social Sustentável adotado pela instituição, que combina ações educacionais, produtivas e de infraestrutura para reduzir a dependência assistencial e criar bases econômicas mais duradouras no Semiárido.

Os Amigos do Bem implantaram fábricas de beneficiamento das famosas castanhas e de doces com a marca da ONG que são comercializadas no varejo brasileiro. A produção é comercializada como produtos 100% solidários, e toda a receita retorna para os próprios projetos. Nesse ponto, o apoio corporativo é essencial.

Não é só sobre dinheiro

Além de doações financeiras, as empresas amigas colocam seus próprios serviços e estruturas à disposição da filantropia. GPA e Carrefour comercializam os produtos da ONG sem cobrar por isso e arrecadam alimentos em suas lojas. Aché e Eurofarma disponibilizam medicamentos. Companhias do setor logístico doam serviços de frete para transporte de doações, e as aéreas — Gol, Latam e, mais recentemente, Azul — levam voluntários de São Paulo ao Sertão gratuitamente. O tamanho do voluntariado impressiona: são 11.000 pessoas.

“Em causas como a dos Amigos do Bem não existe concorrência. Existe colaboração entre as empresas, assim como foi o caso da Latam e da Gol durante a pandemia”, afirma Jerome Cadier.

O primeiro ano da covid-19,  aliás, marcou o pico do investimento social pelas corporações, segundo levantamento da ONG Comunitas. O montante chegou a 6,45 bilhões de reais em 2020. As doações das empresas em 2024 chegaram próximo disso, a 6,2 bilhões de reais, impulsionadas, sobretudo, pelas enchentes no Sul do país. É um número pouco constante, que oscila de ano para ano, a depender dos acontecimentos. Por isso, as organizações miram a doação da pessoa física. Quando o brasileiro se compromete a doar quantias com recorrência, isso dá mais previsibilidade às entidades e ajuda a custear custos fixos dos projetos.

A Pesquisa Doação Brasil, feita pelo Idis com o Instituto Ipsos, mostra que os brasileiros doaram 24,3 bilhões de reais em 2024, uma cifra recorde. O valor ainda não chega a 0,3% do PIB brasileiro, enquanto nos Estados Unidos essa relação é de 1%. No ranking de países mais generosos do mundo, por sua vez, o Brasil está na 48a posição. A lista da Charities Aid Foundation se baseia no percentual da renda individual que é destinada a boas causas. Curiosamente, nesse levantamento, não são os países ricos que estão no topo. Sete nações africanas compõem o Top 10. Os pesquisadores concluíram que valores culturais e influências religiosas foram determinantes para o resultado.

Paula Fabiani, do Idis, afirma que o brasileiro é solidário, mas acaba sendo inibido a fazer doações por um sistema tributário complexo. “Quanto mais bem estruturado for o incentivo fiscal da doação, maior será a propensão do indivíduo a doar. Essa é uma lacuna que a gente tem. Se tivéssemos um ambiente tributário mais favorável, provavelmente teríamos uma cultura de doação mais desenvolvida”, conclui.

Confira a matéria no site da EXAME