A SOLIDARIEDADE QUE TRANSFORMA O SERTÃO

Matéria publicada pela revista IstoÉ Dinheiro em 8/11/2023

Bem-vindo à Vila do Cabelo Duro. Aqui você irá conhecer um Brasil diferente, que mistura realidade e imaginação. O cenário é o sertão nordestino. Árido. Duro. A depender da natureza, a realidade da vila seria tão miserável como a que o escritor Graciliano Ramos retratou em sua obra-prima de 1938, Vidas Secas. Passado tanto tempo, parece que pouca coisa mudou por ali. Nas casas, simples de tudo, falta água, comida, roupa, remédio, brinquedo. Só não falta esperança. E ela se renova a cada nascer do sol — e em boa parte graças ao trabalho iniciado há exatos 30 anos pela empresária paulistana Alcione Albanesi. Movida pelo sonho de fazer o Natal de 1993 melhor para famílias esquecidas pelo Estado (e por quase todos os outros brasileiros), essa mulher inconformada com a pobreza dos outros convenceu alguns conhecidos a doar uma pequena parte de seu tempo e dinheiro a quem nada tem. A semente plantada naquele ambiente inóspito vingou e vem dando frutos para as mais de 150 mil pessoas atendidas mensalmente pela instituição Amigos do Bem, hoje presente em três estados: Alagoas, Ceará e Pernambuco.

A Vila do Cabelo Duro existe de verdade. Fica em Buíque (PE) e é uma prova de que tudo pode ter solução. Até a fome, a sede, a falta de instrução e de saúde. Para provar que mudar a realidade é possível, como já provou em outros lugares, a instituição liderada por Albanesi implantará ali um programa para atender 2 mil crianças, levando ensino, alimentação e projetos de vida para quem hoje não sabe nem sequer o que é isso. E para mostrar como essa transformação será feita, Albanesi criou um simulacro de como vivem as pessoas em uma parte do Brasil onde tudo é difícil. Uma Vila do Cabelo Duro cenográfica foi montada na casa de espetáculos Espaço Unimed, em São Paulo, para a celebração dos 30 anos

COM 3 MIL M² DE ÁREA CONSTRUÍDA, CADA CENTRO DE TRANSFORMAÇÃO TEM 25 SALAS DE AULA, AUDITÓRIO, QUADRAS POLIESPORTIVAS E REFEITÓRIO

dos Amigos do Bem. O cenário reproduziu o sertão de forma autêntica, com cada objeto trazido de uma casa real. Quadros, panelas, canecas, tudo foi doado por moradores. Isso ajudou a sensibilizar os convidados que lotaram os 3 mil lugares disponíveis. Tendo Pedro Bial como mestre de cerimônia, além da animação de Luciano Huck e Rodrigo Faro, a comemoração terminou com um show do cantor Daniel.

No domingo (17), um show musical para 50 mil pessoas no Allianz Parque, o estádio do Palmeiras, em São Paulo, também terá parte da renda revertida para o projeto criado por Albanesi. Os ingressos esgotaram semanas antes. “Por mais que a gente possa construir, ainda é pouco diante das carências do sertão”, afirmou a mulher à frente de 10,6 mil voluntários comprometidos com um mesmo ideal: criar oportunidades para que as pessoas saiam da miséria por meio de capacitação, trabalho e geração de renda.

“A doação é importante e nós seguimos arrecadando e levando mantimentos para as famílias, mas apenas isso não resolve”, disse Albanesi. “Eu acredito que para vencer a miséria é preciso primeiro garantir o acesso à educação e, depois, criar oportunidades para que as pessoas trabalhem, empreendam.”

Por isso, nos quatro Centros de Transformação (CTs) construídos pelos Amigos do Bem nas cidades de Buíque e Inajá (PE), Mauriti (CE) e São José da Tapera (AL), os jovens e crianças recebem formação socioeducacional para desenvolver competências técnicas e humanas que permitam iniciar trajetórias de vida com melhores perspectivas pessoais e profissionais. Há aulas de violão, percussão, inglês, artes, teatro, dança e saber, que complementam a grade curricular do ensino fundamental oferecido nos Centros Educacionais. Com essa abordagem, as escolas dos Amigos do Bem obtiveram desempenho 8,0 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Para efeito de comparação, em 2021, a média das escolas públicas no Ceará ficou em 5,3; em Pernambuco, 4,7; Alagoas, 4,6. Além de notas mais altas, os alunos atendidos permanecem mais tempo estudando. Mensalmente, mais de 200 voluntários viajam para o sertão. Entre eles há psicopedagogos, psicólogos e assistentes sociais que atuam junto aos alunos e aos familiares para encontrar formas de manter o interesse pelo ensino e evitar a evasão escolar. Com 3 mil m² de área construída, cada unidade tem 25 salas de aula, auditório, quadras poliesportivas e refeitório. A cada ano, 1,8 milhão de refeições são servidas às crianças que frequentam os Centros de Transformação. Em paralelo às aulas, há oficinas profissionalizantes de culinária, manicure e tecnologia, entre outros cursos. E a jornada não termina ali. Mais de 500 bolsas de estudo para faculdade já foram fornecidas pelos Amigos do Bem. “Tudo é auditado pela Ernst & Young [EY]”, disse Caroline Albanesi, filha de Alcione e voluntária no projeto desde criança, assim como seus três irmãos.

Se a educação é a base para transformar vidas por meio do conhecimento e do trabalho, antes da sala de aula vem a casa. Por isso o programa não contempla apenas o ensino e a capacitação profissional. Ele começa matando a sede, furando poços artesianos (foram 60 até agora, a maioria alimentada por energia solar), construindo cisternas (123) e distribuindo cerca de 1,2 bilhão de litros de água por ano em uma frota própria de caminhões-pipa. Depois da água vêm a comida e o que vestir. São 360 mil cestas básicas entregues por ano e 440 mil peças de roupas, calçados e outros itens de vestuário triados e restaurados pela equipe voluntária. A assistência às comunidades inclui consultas médicas, exames, fornecimento de remédios, procedimentos odontológicos e até a construção de moradias (mais dados no infográfico das páginas 30 e 31).

BEM MAIS PRECIOSO Coordenar todo esse trabalho exige não apenas competência administrativa. Ele demanda energia para motivar os voluntários, liderar os colaboradores contratados (cerca de 120), fazer a gestão de custos, ir atrás de doações e ainda visitar as comunidades no sertão ao menos uma vez por mês. Alcione Albanesi faz isso tudo com a disposição de uma adolescente. Quando entra em uma das salas onde trabalham voluntários na Central do Bem, na Zona Leste da capital paulista, ela parece ligada no 220. Diz bom dia como se estivesse apresentando um programa de TV, em alto e bom som, bate palmas, pergunta como está o fluxo de trabalho, se falta algo, o que pode ser melhorado. É uma imagem inspiradora, e talvez explique por que tanta gente a acompanha há tanto tempo sem receber nenhum centavo. “Metade dos voluntários está com a gente há 15 anos”, disse Albanesi. Entre as funções que executam está dar nova vida a bonecas e brinquedos doados — que serão entregues para os próximos donos na caixa, como se nunca tivessem sido usados. Outras estão costurando enxovais completos para futuras mamães do sertão, com toalhas, mantas, roupinhas de bebê. Uma pergunta se impõe: como convencer as pessoas a doar seu bem mais precioso, que é o tempo delas? “Nós não queremos uma ação voluntária, queremos um voluntário que realmente assuma a nossa causa e que dedique seu tempo de forma consciente.” Exatamente como ela faz todos os dias.

A diferença é que dificilmente quem está cedendo suas horas ali vendeu uma empresa para se dedicar em tempo integral a fazer mais pelos outros. Pelo menos não uma empresa do tamanho da FLC, que chegou a ter 38% de participação no mercado de lâmpadas econômicas. A FLC foi fundada por Albanesi há cerca de 35 anos, depois de ela ter se desfeito de uma confecção. “Eu comprei uma loja de materiais elétricos na Rua Santa Ifigênia e de lá expandi o negócio importando lâmpadas da China”, afirmou. Pioneira em um segmento no qual líderes de mercado como GE, Phillips, Osram e Sylvania demoraram para entrar, a FLC cresceu a ponto de ter 13 fábricas fornecedoras na Ásia, oito delas exclusivas, além de ser a primeira a produzir lâmpadas de led no Brasil. Até que em 2014 veio a decisão: vender a empresa e dedicar 100% de seu tempo aos Amigos do Bem. A experiência acumulada em anos como gestora do próprio negócio foi fundamental para dar à instituição um nível de profissionalismo que raramente se vê no terceiro setor. Além de estabelecer procedimentos a partir de métricas claras e definir objetivos para a expansão do negócio, como faz qualquer CEO, Albanesi digitalizou a operação em cada detalhe. Uma sala repleta de telas de TV exibe em tempo real dados enviados pela frota de 100 veículos usados todos os dias no sertão, de ônibus escolares a caminhões pipa. É possível saber o quanto cada um gasta de combustível, óleo, pneu, quando está parado para manutenção, quando precisa ser substituído. Mas o que chama a atenção é o modelo de monitoramento de cada pessoa beneficiada pelo programa. A partir de um cadastro individual, todos os dados ficam no sistema, das aulas que as crianças frequentaram às cestas báde sicas recebidas pelas famílias. Como em uma grande empresa, um crachá com a foto e um chip permite fazer a leitura das entregas a partir de um aplicativo criado para os voluntários especialmente para esse fim.

Por ter começado seu trabalho assistencial sem conhecer a fundo a realidade do sertão e nem as necessidades reais de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, Albanesi se valeu de suas habilidades como gestora para organizar os Amigos do Bem como uma atividade perene e não apenas pontual. Segundo ela, ninguém consegue começar algo novo e acertar sempre. “A gente foi acertando e errando, mas persistindo”, disse. Uma lição dolorida, mas importante, foi o incêndio que destruiu uma das instalações anos atrás. Ninguém se machucou, mas o fogo consumiu o trabalho de meses. Mantimentos, roupas e remédios coletados em doações viraram cinza, assim com a produção de castanhas. “Por mais triste que tenha sido perder tudo aquilo, aprendemos a planejar melhor nossas instalações, dividindo o estoque em galpões distintos. Tudo ensina, né?”

A maneira como lidou com aquele episódio revela uma característica do perfil empreendedor de Albanesi. “A gente tem uma gestão muito focada em resultados e eficiência, mas de uma forma desburocra tizada e simples”, afirmou. “Se nós não temos hoje condições de chegar até o que é o ideal, a gente acaba vendo o que é possível fazer hoje.” Para ela, essa é uma forma realista e prática de superar os desafios complexos de uma grande organização. “Amigos do Bem é uma empresa e nosso nível de exigência é o mesmo de uma companhia com 10 mil funcionários e centenas de milhares de clientes.” Isso é obtido por meio da governança e de uma metodologia seguida à risca. “Criamos comitês, um conselho consultivo e promovemos capacitação constante para toda a equipe”, disse a gestora.

Além da auditoria citada pela filha Caroline, auditores voluntários acompanham os resultados de cada departamento mensalmente. “Assim temos um compasso do que precisa ser melhorado.”

A natureza empreendedora de Albanesi é bem mais que um dos fatores do sucesso da instituição que ela criou e comanda.

CADA UNIDADE PRODUTIVA GERA RENDA PARA AS FAMÍLIAS E, COM O LUCRO DOS PRODUTOS SOCIAIS, MANTÉM MILHARES DE CRIANÇAS ESTUDANDO

É uma motivação para as pessoas que frequentam os Centros de Transformação. “Quando a gente identifica que aquele jovem não tem o espírito empreendedor suficientemente maduro para montar um negócio próprio, seja uma confecção, um salão de beleza ou uma pequena confeitaria como tantos já fizeram em cada região atendida, nós damos espaço para que ele siga seu melhor caminho profissional”, disse. “O importante é que trabalhe, pois tudo o que fazemos é pensando que as pessoas precisam ser autossuficientes financeiramente. Ter renda.”

A própria instituição é um modelo de autossuficiência. Embora ainda dependa de doações, ela gera receita a partir de negócios sociais. Hoje são quase 2 mil empregos no sertão em 15 unidades produtivas, entre plantações de caju, fábrica de beneficiamento de castanha, oficinas de costura e artesanato, fábrica de doces e mel. Alcione criou o Modelo de Desenvolvimento Social Sustentável dos Amigos do Bem, um ciclo virtuoso em que uma unidade produtiva gera renda para as famílias e, com o lucro dos produtos sociais, mantém milhares de crianças estudando. Uma mudança sistemática da economia local. É dessa forma que a Vila do Cabelo Duro, citada no início desta reportagem, até hoje um reduto de miséria, em poucos anos será um local onde se aprende, trabalha e prospera. Exatamente o que Brasil precisa.

Revista IstoÉ Dinheiro: https://istoedinheiro.com.br/a-solidariedade-que-transforma-o-sertao/

 

 

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